quarta-feira, 2 de julho de 2014

Ainda não tem título

Já estou com minha senha, estou aqui parada, olhando ao redor, é tudo cinza e amarelo. As mesas são de fórmica, cinzas, com detalhes em amarelo, também tem vidros enfumaçados para que assim o cliente não veja a cara de que lhe atende. Grande bosta, eles nem acertam meu nome, de que me serve ser vista por essa gente? De um lado ficam as escrivaninhas e do meio do salão até a outra parede ficam as cadeiras, bem no meio tem um pilar, ali tem um aparelho que mostra a senha. Estou sentada a meia hora e minha senha é a 50, está na 45. Olha que eu sou preferencial hein, acho que nem essas senhas pra velhos funcionam, eu sempre espero o mesmo tempo. Espero a seco, porque aqui ninguém me dá nada, só me tiram, esses filhos da puta. O outro dia veio um querer me vender um seguro de vida, e eu disse que não, mas afinal, pra que me serve um seguro de vida se quando eu morrer não vou ficar com o dinheiro? Rá, inventam cada coisa, que eu rio por dentro, rio pra não esbofetear um. Juro que se tivesse músculos eu dava um soco, bem na fuça do primeiro imbecil que viesse me fazer uma proposta dessas de seguro, eu quebrava a cara dele todinha, arrancava os olhos e comeria mais tarde com molho e macarrão. Mas não dá, meu corpo tá todo caído e músculos eu nunca tive.
Ah, lembrei agora, lembrei de quando eu abri minha primeira conta no Banco do Brasil, era tudo tão diferente. Primeiro que eu era bonita, eu tinha uns peitos duros que fazia chover. Eu entrava no banco e o gerente já biscava, eu como sempre fui puta, retribuía é claro, ainda mais que era o gerente, eu sempre ganhei muita coisa só pela piscadinha.
Tinha também a Gorete, ela era da limpeza, ficava numa alegria de me ver. Sempre fui mulher independente, quem cuidava da conta da família era eu, até porque o Cesar me deixou com os dois filhos pra criar e foi correr mundo, ou eu cuidava ou me fudia, no fim aconteceu os dois, cuidei de tudo e me fudi junto. Uma fudida de peito duro, até que valeu a pena. Melhor que aguentar ver o Carlos ficar broxa, foi melhor assim.
A Gorete, eu colocava o pé na porta e ela vinha com um cafezinho. Agora fiquei pensando, será que ela gostava de mim ou o gerente que mandava o café? Nunca tinha pensado nisso, sempre acreditei que ela me achava simpática e por isso fazia o que fazia, ela também podia ser machorra. Nossa eu me considerava puta e essas coisas nunca tinham me passado pela cabeça, to vendo que puta eu sou agora. Mas de que adianta, agora?! Ah, desgraça esse tempo, não passa nunca e minha senha nada.
Puta, puta mesmo eu nunca fui, mas na minha época, piscar pra rapaz já era putaria, fui chamada de puta pela minha mãe sem nunca ter trepado, desde novinha já me chamavam de puta na família. Primeiro fiquei triste, mas depois eu descobri as vantagens do apelido. Agora eu me intitulo sem nunca nem ter tido outro homem além do Cesar, criei dois filhos, mas se tenho peito sou puta! Vai entender?!
Chamaram minha senha, finalmente.
O gerente, mal olha pra mim, tá vidrado na tela do computador, pediu meu CPF, mostrei o papel pra ele porque nunca fui boa de decorar números. Ele agora tá engasgando com meu nome e eu já repeti três vezes Silvia Salsa Silva, maldito dia que minha mãe escolheu o nome de Silvia, já não bastava os outros ésses do nome? Se minha mãe fosse viva eu juro que matava aquela vadia. Primeiro me encheu de S, depois me apelidou de puta, e eu carrego tudo até hoje. O cachão é o lugar dela, velha desgraçada. Quando eu morrer não quero que me enterrem perto dela. Já avisei a Paulinha e o Ricardo, lá na Vila Mariana eu não quero ser enterrada, se puderem me enterrem em Curitiba, porque eu mereço cidade boa, me enterrem e nem precisa ir lá me visitar, até porque não vou poder conversar com vocês, não que eu goste de conversar, odeio interagir, mas viajar de Santa Catarina até o Paraná e nem bater um papinho, me enterra lá e me esquece por lá.
A Paulinha chora, sempre foi chorona. Maldito dia que tive essa pirralha, não cresceu nunca. O Ricardo não tá nem aí, ele quer é meu apartamento o desgraçado, puxou ao pai. Garanto que vai ter os filhos e deixar por aí.
- É Silvia Salsa Silva.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Saudade

A poesia morreu
declinou em minha memória

A poesia não vem
bateu a porta na minha cara

Ah, poesia desgraçada!
nem quando mais preciso te disfarças

Se eu pudesse eu te escreveria
Te mastigaria e te engoliria
E então te sentiria
te deglutiria e te expulsaria.

A poesia foi embora
não deixou nem endereço de chegada

Ah, poesia desgraçada!







quarta-feira, 25 de junho de 2014

Poesia

Poesia: Fernando Naporano

ilus


O silêncio do ar 
parece rachar
o abandono
dos meus sentimentos

A cabeça conclusivamente vazia
ilha de fel feliz
resignada
sem soluções
sem as cercas dos dias

O olhar ao nível da terra
plenitude roxa
a arder de esquecimento
Nada ao lado de nada
é a pedra
a rigidez da sua lava
que afasta
quem contempla o rosto

•••

Luz eneblinada
quase faz com que o ar
se recolha dentro de si
Claridade insuspeita
egressa do cinza
rima hermética
inerte
num facho de sol

Minúsculo calor opaco
partículas de frágil resistência
onde a alma de pedra
boia
fita a neutralidade
de todas as coisas

e se apoia

ilus2










•••

Propago-me lento
cada vez mais lento
além lesma
no silêncio da grama

A sabedoria do vazio
instala sua cama
na minha altura

Medito sobre as dissipações
sei da nudez sem rastros
das nuvens paradas
que ajudam o tempo
não passar entre os dedos


Fernando Naporano

terça-feira, 24 de junho de 2014

Reencontrando Dostoévski

Ontem estava muito ansiosa e para variar não conseguia dormir. Estou sempre cheia de tarefas, fazer mestrado é uma experiência única de produtivismo e falta de relação.
Então, estava eu entregue a esse cenário e com a ansiedade saindo por todos os poros, estava pensando nos prazos, no medo de perder a bolsa, no medo de não conseguir terminar e na difícil tarefa de criar algo que tem que ser sempre referenciado, caso contrário não possui valor científico.

Me lembro até hoje, quando falei para um grande amigo meu que eu havia passado no mestrado, por sinal o mesmo mestrado que ele tinha feito. Sabem o que ele me disse? Ele disse assim: "bom Marcelinha, serei o teu consultor para assuntos inúteis".

Hoje compreendo o que ele me falou, hoje vejo que as coisas, infelizmente, não possuem muito sentido por aqui. Tenho buscado muitos sentidos, e até encontro explicações racionais para meu momento de vida. Mas se eu pensar no sentido que gosto, o sentido que vem das relações e a compreensão dela, enfim, tudo o mais se torna assunto inútil. Tal qual meu amigo me alertou.

Pode parecer deprimente a minha forma de escrever, mas na verdade hoje lido com a realidade e sei os benefícios de passar pelo processo que estou vivendo. Isso é o que me consola.

Agora você pode estar pensando, mas o que Dostoévski tem a ver com isso?

Eu retorno àquele momento de ansiedade saindo pelos poros.
Estava eu, querendo dormir e sem conseguir e eis que penso: "Iniciei a leitura dos Irmãos Karamazov, e o produtivismo acadêmico fez com que eu me afastasse da leitura. Faz um mês que não leio nenhuma página do livro e estou louca para saber o que aconteceu com a família Karamazov após o encontro com o Mestre".

Não preciso dizer né?! Fui lá e peguei o livro novamente. Ainda não descobri o que aconteceu com a família, meu sono chegou antes. Mas nossa, Dostoévski sempre me fez bem! Me desliguei de tudo, me entreguei ao enredo, e por muitos momentos tive ódio/raiva de Fiodor, o pai dos irmãos Karamazov.
Ah, Dostoévski, como eu queria ter tempo para lhe ler mais. Ah, como é bom fazer o que se gosta, mesmo que não se tenha mais tempo (vida) para isso.

Abraço

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Encontro

Eram 10h, da madrugada, nosso encontro estava marcado. Aqueles encontros com hora de início e hora de fim.
Mas assim? E isso pode ser encontro?
Sim.
Eram 10h, e ela chegou, ela me olhou como nunca alguém olhou.
Ela me respeitou e não me viu com penar.
Ela entendeu que eu sou uma história e isso bastou.
Eram 10h30 e demos muitas gargalhadas,
gargalhadas que só acontecem nos encontros de verdade.
A gargalhada dela era a minha e a minha era a dela.
Esse foi o nosso encontro.

sábado, 26 de abril de 2014

Tu

Quando eu olho para você
quando vejo os seus olhos
aparece uma pequena chama, quase se apagando
lá no fundo de seus olhos tristes
bem lá, perpassando a linha da solidão
tem uma pequena chama
que me chama e me diz, eu sou isso aqui.

Quando eu olho pra você
eu sinto a tristeza do mundo em mim também
quando vejo
eu entristeço e fico sem saber o que fazer

Quando eu olho pra você
eu rezo
peço com toda força à Deus que enxergues a luz
que cultives a chama.

Quando eu vejo você
me dói
vejo a criança que nunca foi cuidada
vejo a pessoa que pouco foi olhada

Quando eu olho pra você
eu pego um espelho
coloco na tua frente
você me diz que não vê nada

Eu me desespero, não sei o que fazer
não sei como chegar lá
não sei como fazer a chama crescer
e isso me inquieta

Quando eu olho pra você
eu formulo mil formas de espontaneidade
e você fica preso, parado, triste

Quando eu olho pra você
eu vejo você
eu e você
e penso
de onde tirarei forças?

Quando eu olho pra você
existe mais no fundinho ainda
um rosto de alguém que me diz
nunca me ensinaram

sinto tristeza
não sei o que fazer

então pergunto
o que posso fazer por você?

nunca perguntei a você
porque quando olho pra mim
eu vejo uma chama atrás dos meus olhos caídos.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O controle e o caos

- Quantos canais tem sua televisão?

- todos da NET menos os de filme, sai muito caro.

- Quantos tu assiste?

- uns 13, sei lá.

- Tu sempre usa o controle para mudar de canal?

- mas é claro, que pergunta idiota. quem hoje em dia levanta para mudar o canal? em que mundo vives? por que tantas perguntas? se continuares, vou te dar um soco.

Ah, tamanha ira de Fabio, quando Lucíola lhe falou no controle.
"Pode parecer uma pergunta idiota, mas sei lá, minha falecida vó nunca se acertou com o controle remoto, achava que se usasse-o poderia tonar a TV inoperante, desse modo, ela pensava que se clicasse no botão de volume do controle remoto só poderia aumentar o volume pelo controle, até o momento que a TV seria desligada da tomada e religada a fim de que voltasse ao normal. Sei também que o Fabio não tem a idade que minha vó faleceu, ele é meu contemporâneo, não é a geração Y mas consegue lidar bem com tecnologias, mas que mal há em falar em controles? Talvez esse fosse o fio da meada para uma conversa, uma aproximação. Mas não! Esse controle acionou uma mola nele, que sei lá onde bateu, mas a reação foi... vou te dar um soco. Ah, desde que meu irmão foi morar sozinho, já não entendo-o mais. Enfim, vou tentando entende-lo aos poucos".

"ah, o que Lucíola pensa que é, vem aqui em casa e fica indagando tudo. sempre umas perguntas idiotas e óbvias, se ela ainda fosse pequena e eu também, juro que teria pulado no pescoço dela, dado uns socos no seu estômago até ela chorar, só pararia quando ela gritasse pai para ele vir me tirar de cima dela".

A noite chegou. Lucíola foi embora. Fabio deitou-se em sua cama, a cama era de casal, mas companhia não havia por ali, pegou seus dois controles, um da NET e o outro da TV. Ligou ambos e foi trocando os canais. Aos poucos ia pensando: não gostei, pula. esse assunto é chato, pula. esse programa é muito emotivo, pula. esse é de mulherzinha, pula. pulou tanto, fugiu tanto, tal qual fez com Lucíola. na TV ele não precisava ameaçar com soco. qualquer insatisfação fazia-o clicar no botão. socos imaginários em qualquer manifestação humana.

Como era Fabio? Nem ele sabia. Pesava mais de 180 quilos, no troca troca dos canais, ele comia um pouco para passar o tédio. Foi tanto tempo fugindo de tudo, que uma manta de gordura o separava do mundo, o separava até mesmo da televisão. E para ele bastava estar com o controle na mão e ir mudando. Com TV ou sem TV ele é que mandava no controle. Mas ao certo não sabia quem era, nunca tinha nem parado para pensar. Adoçava a vida com muito açúcar, dos mais diversos tipos, confeitos, sorvetes, bolos, etc. Balanceava o doce com um salgado, afinal como adoçar as amarguras se já está se sentindo doce ao extremo?

Fabio nunca parava, nunca olhava seus olhos no espelho, não compreendia a si. Não compreendia e nem tentava. Apenas comia.

Mas até os psiquismos mais inconscientes sentem dor. E na calada da noite, ele chorava. Chorava igual a um gatinho que quer deitar com seu dono em uma noite fria. Ele miava, porque chorar mesmo ainda não tinha aprendido.

Seu controle e seu miado. A única partícula de vida que sempre lhe dizia: você está aqui e Não há escapatória. Assim ele miava mais um pouco. Sentia seu estômago inchado de tanta comida e não sabia o que fazer. Miava, Miava, Miava. Ultimamente Miava em letra maiúscula.